Tudo Rondônia: A miss Jaru

Cícero Cabeça de Pato, homem avantajado, conversador e contador de estórias, tinha vida econômica em Campo Novo, distrito de Porto Velho, onde era influente líder político. Mas morava em Ariquemes, onde ficava sua família, guardiã da sua bela filha. Uma morena de curvas generosas, cabelos cor da graúna, sorriso fácil e faceiro. Orgulho da família. Um tesouro.

A beleza da moça logo foi notada na cidade. Tanto, que acabou eleita Miss Jarú, o distrito mais importante de Ariquemes. Uma verdadeira cidade, onde os irmãos João e José Gonçalves eram os primeiros do dia a abrir as portas do armazém e os últimos a fechar. Na verdade, a moça – que, se não me falha a memória, se chamava Jussara – ficou em segundo lugar no certame de beleza, realizado, senão me engano, no Clube do Gesa, na Avenida Jamari, a mais importante da cidade. Mas de tão bela, os organizadores resolveram homenageá-la dando-lhe o primeiro título de beleza do Jarú, que por sua vez, sairia também prestigiado.

Dizem que teve o dedo de gente importante nessa decisão, como o do já famoso Teixeirão ou do galã Chiquilito, prefeito de Porto Velho, amigos da família da moça. Amizades das quais o Cícero muito se orgulhava. Afinal, ele era um importante personagem política de Campo Novo. Respeitado por todos e bem recebido pelos chefes dos executivos de Rondônia e da Capital. Gente que, para fazer valer sua vontade, não precisava estar na festa.

Jarú, então administrado por Sebastião Mesquita, nomeado por Francisco Sales, prefeito de Ariquemes, não gostou da novidade. Embora reconhecesse os méritos estéticos da ‘sua’ miss, questionava o fato da moça morar em Ariquemes, ser de Campo Novo, ter sido ‘apadrinhada’ pelo povo de Porto Velho e nem sequer conhecer a cidade que representava.
Mas a dinâmica da sociedade na construção do novo estado, que recebia diariamente centenas de migrantes de todas as partes do país para ocupar o novo ‘El Dorado’, diluiu esses sentimentos. A música mais ouvida vinha do ranger das motos serras, do amanhecer ao anoitecer. Nas cidades, distritos, vilas e nos projetos de assentamentos que invadiam a selva inóspita. Entre esse cantar, o agudo assovio do seringueiros na copas das árvores altas e as melodias de Zé Rico e Milionário, Mato Grosso e Matias, Sérgio Reis e tantos, embalando o levantar dos copos de cervejas nos breves momentos de descanso.

A Mídia nacional do governo federal recomendava ocupar para não entregar, derrubar para tomar posse. Sem isso, o parceleiro perdia a Ordem de Ocupação da terra expedida pelo Incra.

Os prefeitos derrubavam as matas urbanas e distribuíam as terras para os chegantes. Lotes para moradia, comércio e indústrias predominantemente, madeireira. De graça. Nesse ambiente quem tinha tempo para ficar discutindo a eleição da Miss Jaru?

O certo é que logo o assunto perdeu força. Vez ou outra entre um gole de cerveja alguém relembrava o caso e o encerrava às gargalhadas. Como dizia o padre Carlos Naldi, vigário do Jaru: logo seremos município e teremos nossa própria miss. Não será preciso importar.

Perdi o contato com a família. A última vez que vi o Cícero foi em Campo Novo, após ajudar deglutir uma formidável tartaruga, oferecida ao coronel Jorge Teixeira, amigo do peito do anfitrião. Mais tarde soube que a bela Jussara fora contratada, pelo prefeito da Capital, para trabalhar em Porto Velho. Hoje, lamentavelmente, não sei do destino desta pioneira família inscrita na história da colonização de Rondônia.

OsmarSilva – jornalista – [email protected]

Fonte: http://www.tudorondonia.com.br/noticias/a-miss-jaru,52380.shtml

Blog o mundo em que vivo: Campo Novo de Rondônia

Como todos os municípios de Rondonia, Campo Novo tem a paisagem abaixo:


O município está ao sul de Buritis, e seus centros urbanos estão separados por
apenas 60 Km de estrada de terra. Entretanto, as semelhanças entre eles são poucas. A
vocação original é diferente, e isso muda tudo.
Eu já disse que, fora Porto Velho e Guajará-mirim, tudo por aqui é recente, mas sempre
há uma exceção. A região onde está Campo Novo começou a ser ocupada na década de 50. Descobriu-se que suas terras são ricas em cassiterita, o mineral do
estanho, e iniciou-se aqui uma atividade garimpeira manual, ou feita por pequenas empresas. Pessoas vieram prá cá fazer dinheiro. Buracos e dinheiro, a bem dizer.

Com o passar dos anos, e o crescimento da importância dessa atividade extrativista para a economia do país, o governo federal da década de 60 proibiu a garimpagem manual e privilegiou mineradoras de médio e grande porte, que faziam uma extração mecanizada, mais produtiva. Não havia estradas, e abriram um novo campo para
pouso de aviões, único meio de transporte até essas terras, então cobertas por densa
floresta tropical. A única referência para a chegada de correspondências, dizem, era
mesmo a pista de pouso, o campo novo. Minha amada, minha querida, mande sua
cartinha pro campo novo que a receberei. E assim foi. Não sei se o caso de amor que
acabei de criar vingou; provavelmente não, que vida de garimpeiro não combina com
vida de marido, mas o nome pegou e, em 1992, foi criado o município de Campo Novo
de Rondônia.

Eu sempre pensei que a BR-364, que liga esta região ao resto do país, fora construída na época da colonização, para trazer os muitos paranaenses que vieram prá cá a partir da década de 70, mas não. Foi a exploração mineral que fez com que a construção da estrada finalmente acontecesse. Desde os tempos de Getúlio que se falava nessa estrada, e alguns trechinhos eram construídos, mas foi com Juscelino e a cassiterita que ela voltou a virar realidade. Uma realidade lenta, porque foi João Figueiredo, quase 20 anos depois, que a inaugurou asfaltada.

Voltando a Campo Novo…

Acima duas fotos da avenida principal, para um lado e para o outro, a partir do ponto onde eu me encontrava, obviamente. O limite dessa avenida corresponde ao limite da cidade. Abaixo, fotos de outros pontos da cidade:

Há quem diga que esta cidade não vai prá frente; há quem diga que ela vai acabar; mas
não é verdade. Bancos por aqui, só o Banco Postal e um caixa automático do Bradesco.
Tem também uma lotérica, que passou um tempo fechada mas reabriu em dezembro passado, facilitando a vida dos correntistas da Caixa, que não precisam mais viajar 100 Km para sacar seu rico dinheirinho.

Há um pequeno hospital, que sofre prá conseguir médicos, mas há. Bares e farmácias, esses pipocam como em todos os lugares. Várias ruas estão sendo asfaltadas; a primeira praça da cidade está sendo construída (dizem que há muuuiiiiitttoooosss anos se dá essa construção, mas não sei. Só sei que é devagar, porque nunca vi homens trabalhando lá); uma empresária local está apostando e acabou de construir um prédio grande, de alvenaria, que abriga uma bonita lanchonete.

A avenida central é larga, e concentra a maior parte do comércio. A loja Pluralidades
nada mais é que um supermercado, e a Novas Novidades, do outro lado do que um dia
deve ser uma praça, nada mais vende que pluralidades. É, tem de tudo lá dentro, roupas,
brinquedos, presentes para casa, papelaria, etc.

O lugar mais bonito da cidade é a sede do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ex-IBAMA), que administra o Parque Nacional dos Pacaás Novos.

Aqui vive a Arara, esse lindo pássaro domesticado. Araras costumam viver longe de humanos, e quando as vemos elas estão lá no alto, voando com seus pares. Sempre em par. Mas não essa daí. Arara foi criada em cativeiro doméstico. Teve suas asas cortadas, é cega de um olho, e nunca encontrou o amor. Um dia sua dona cansou-se, ou por algum motivo não pôde mais cuidar dela, e a doou, ou entregou, sei lá qual o melhor verbo prá isso, para o ICMBio de Campo Novo. A sede do ICMBio tem com um jardim bem cuidado, e é lá
que nossa musa vive. Caminha, sobe em árvores, vai ao braço dos conhecidos, dos
chegados. Mas voar, não voa. Encontrei-a no portão. Um pouco arisca, não deixou que
eu me aproximasse muito, mas nunca pensei em fotografar uma dessas tão de perto.

Para o curioso leitor que quiser visitar esta simpática cidadezinha, dirija pela BR 364 até
Ariquemes. De lá, pegue a BR 421, aprecie as planícies amazônicas por 75 Km, e
depois entre no último trecho da estrada, diferente de tudo que se vê por aí. São 26 Km
de estrada de terra num terreno acidentado, com muitos morros e pedras. Muitas pedras.
Sempre surpreende o amazônida desavisado que não está acostumado com altos e
baixos no relevo.

A porção sul do território de Campo Novo é desabitada do bicho homem, porque abriga
o Parque Nacional dos Pacaás Novos, (mais aqui) lugar que ainda quero conhecer. A porção norte, que faz divisa com Buritis, está hoje desmatada e é usada para agricultura e pecuária de leite. A porção sudoeste também. Mas uma boa parte do território, a sua porção leste, é
mesmo usada para a garimpagem de cassiterita. São milhares de buracos, antigos e
novos, em todos os lugares.
As grandes empresas de mineração ficaram por aqui até quando foi rentável prá elas.
Exploraram e foram embora, deixando o espaço para os pequenos garimpeiros. O
resultado é que hoje a extração mineral é feita meio que domesticamente. São
pequenos garimpeiros, eles dizem, pessoas físicas que têm uma ou algumas poucas
máquinas, empregam 5 a 7 pessoas por maquinário, e extraem uns 100, 200 Kg de
cassiterita por dia. Eles arrendam sítios ou fazendas, exploram o minério, e pagam com
10% da produção para o dono da terra. Atualmente há somente uma empresa grande atuando, a Metalmig. Ouvi dizer que eles tiram, ou têm condições de tirar, cerca de 1 tonelada de cassiterita por dia, mas não conferi a veracidade dessa informação.
Bem, os pequenos trazem sua produção prá um separador, localizado na zona urbana, que
lhes paga, hoje uns R$25,00 pelo quilo de cassiterita. O separador separa um pouco mais o
minério do “ferro”, como eles chamam o metal que não é cassiterita mas que vem junto, e vende a cassiterita em Ariquemes, por um preço que parece ser segredo. Uma das empresas que compra é a ERSA – Estanho de Rondônia, que é a mesma dona da CSN.

O metal é pesadinho. Um quilo corresponde a um copo de extrato de tomate cheio. Um saco dos que vocês vêem na foto abaixo pesa em torno de 100 kg, ou seja, tem uns R$
50.000,00 aí nessa foto.

Parece que ganham muito dinheiro, mas também perdem com mulheres e bebida, como
todo mundo sabe. Dinheiro ganho fácil… mas não é assim com todo mundo. Os donos
dos maquinários são mais espertinhos e eu acho que investem seu dinheiro em mais
maquinário, em casa prá família morar, em presentes prá esposa (peguei taxi com um
marido apaixonado uma vez, levando um presente prá mulher, que mora em
Ariquemes).
O hotel onde eu paro em Campo Novo é da esposa de um garimpeiro, por exemplo. Os
garimpeiros param no mesmo hotel, quando vêm prá rua, e às vezes eu converso um
pouco com eles. Essa frase foi só prá mostrar como eles falam por aqui. Ninguém
dorme ou pousa em tal lugar, mas pára.

Um dia, sentada nesse sofá assistindo TV, um garimpeiro ao meu lado quiz saber o que penso do beijo técnico. E depois falou-me dos planos dele para o futuro. Teria acabado comigo, se eu tivesse medo de envelhecer.
Ele mexe com garimpo desde 1984, e disse que vai parar em 2011. Já tem 47 anos e
quer se casar outra vez, sossegar. Mas não quer se casar com mulher nova não; mulher
nova é bom só prá um programinha, mas sai caro, uns R$200,00 a 300,00 por programa.
A mulher não precisa ser nova, ele repetiu, uns 30, 35 anos tá bom prá ele. Até 40 até que vai. Ela também não pode ter filhos, e nem querê-los (querê-los?? Pode essa esquisitíssima
construção???). Relevei. Ele estava bêbado mesmo. Hehe.

Tá doido prá ver a cara do moço né, Torero? Sorry, tirei foto não.

Vida de garimpeiro é itinerante. Eles são nômades levados prá lá e prá cá ao sabor das
fofocas. É assim que eles chamam as notícias que dão conta de um ou outro lugar onde
tá dando dinheiro. Transitam principalmente entre a cassiterita de Campo Novo e o ouro
em Jacareacanga, no Pará.
De novembro de 2010 prá cá aumentou muito o número de garimpos em Campo Novo,
porque o preço do quilo subiu consideravelmente. Segundo me disseram, esteve em R$ 12,00 no meio de 2010, foi a R$24,00 em dezembro, chegou a R$ 32, 00 umas semanas atrás e, na semana passada, estava em R$ 25,00. O preço subiu porque estava faltando estanho na China. É o mundo globalizado que todos já conhecem. Falta estanho na China e muda a vida da galera no interior da Amazônia. É isso aí.

 

Fonte: https://omundoemquevivo.wordpress.com/2011/03/27/campo-novo-de-rondonia/